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04 novembro, 2013

As investigações de cenas de crimes no Brasil

por Julia Layton - traduzido por HowStuffWorks Brasil

“Não alterar a cena do crime”. Essa frase é ouvida diariamente por policiais civis e militares. E cuidar para que isso aconteça é muito importante até a perícia chegar ao local. No Brasil, no entanto, são comuns os casos de alteração da cena do crime.

Ao chegar, a polícia deve cuidar para que nenhuma prova seja retirada e que a cena não seja alterada. Quanto mais o local estiver igual ao momento em que aconteceu o crime, mais fácil será o trabalho da perícia, que é fundamental para a comprovação de como ocorreu o crime e buscar provas que levem ao seu autor. Marco Antonio Desgualdo, um dos mais experientes investigadores da Polícia Civil de São Paulo, observava tudo, ajudando a verificar o que poderia ter ocorrido no local. “O cadáver fala”, dizia Desgualdo. No corpo da vítima é possível encontrar algumas importantes pistas. Por exemplo: se houve luta, sob as unhas do morto pode haver pele do assassino. Fios de cabelo e pêlos do corpo no local também podem indicar o criminoso. Por isso, toda a atenção é necessária. Muitas vezes, sabendo desses detalhes, os assassinos tentam mascarar a cena do crime e até tomam alguns cuidados, como teriam feito Suzane Richthofen e o namorado dela, Daniel Cravinhos, que, com a ajuda do irmão de Daniel, Christhian, foram condenados por matar o pai e a mãe da moça, enquanto eles dormiam, em 2002.

Estudante de direito, ela planejou tudo, comprando, inclusive, meias femininas que eles colocaram nas pernas, mãos e cabeça. O objetivo era não deixar os pêlos dos assassinos no quarto do casal, o que levantaria a suspeita da polícia. No caso dela, este recurso deu certo porque não foram encontrados nem pêlos nem cabelos no local, mas o resto do plano falhou e ela foi condenada e presa e acabou confessando o crime. O namorado e o irmão dele também foram detidos.


Em outro caso, foi possível desvendar um assassinato pelas marcas deixadas pelo calçado do criminoso. O homicida, ao fugir do local, pisou com seu tênis no sangue da vítima e deixou marcas no chão. A perícia descobriu o número do tênis e o modelo.  A polícia, então, fez a sua parte e achou o suspeito: um aluno que matou o professor no apartamento dele, em São Paulo. Assassino literalmente pego pelo pé.

Mais um exemplo da importância da perícia e como ela pode ser fundamental na solução de um crime é o casao de uma mulher encontrada morta na banheira do seu apartamento. Foi o noivo quem encontrou o corpo. A perícia constatou que não tinha sido acidente, porque havia água nos pulmões, o que significava que ela tinha sido afogada.

O noivo passou a ser o principal suspeito. Ele contou que chegou ao apartamento às 20h e que ela já estava morta, tendo chamado a polícia imediatamente. O horário do telefonema dado à polícia batia - foi às 20h04. Mas a versão do noivo caiu por terra quando o porteiro disse que o tinha visto chegar às 18h, e não às 20h. A perícia comprovou que a morte tinha ocorrido por volta das 18h15, colocando o rapaz na cena do crime. Foi através da decantação do sabonete no corpo que a perícia determinou a hora da morte, um trabalho minucioso que levou o assassino para a cadeia. Sem saída, ele acabou confessando que matou a noiva porque estava apaixonado por outra mulher.

Antigamente, a perícia brasileira tinha poucos equipamentos adequados - por exemplo, para recolher impressões digitais passavam um pó para localizar uma digital e a “recolhiam” num pedaço de durex. Os peritos andavam com água oxigenada no bolso para jogar sobre manchas e verificar se era sangue. Se a água oxigenada “fervesse” era sangue.

Hoje as coisas estão mais fáceis, modernas e sofisticadas. O Instituto de Criminalística de São Paulo, por exemplo, tem equipamentos de última geração similares a algumas usadas pelo FBI ou em séries policiais, como Law&Order ou C.S.I.

Há um microscópio, chamado de “microscópio de varredura” que é capaz de encontrar um grão de areia nas roupas de alguém. Já houve casos em que o assassino negou o crime, mas foi pego porque a terra encontrada na roupa dele (mesmo depois de ele a ter lavado) era do mesmo tipo da terra onde foi encontrado o corpo da vítima.


No famoso caso do assassinato do coronel Ubiratan, morto em setembro de 2006 em São Paulo, a perícia foi fundamental para dar subsídios às investigações, ao determinar a hora do crime, a posição do atirador e ao não encontrar no apartamento nenhuma digital que não pertencesse ao próprio coronel ou à noiva dele.

Um recurso importante usado atualmente pela perícia é o “luminol” (que a gente vê com freqüência em filmes policiais). É uma substância especial, que substituiu a artesanal água oxigenada. Quando colocada sobre uma mancha de sangue, ela fica fluorescente, azulada. Mesmo que o criminoso ou os criminosos limpem o local, o luminol consegue mostrar que ali havia sangue.

A morte de Isabella Nardoni, de cinco anos, em 29 de março de 2008, causou comoção nacional e provocou discussões sobre a importância da perícia num caso  como este. Também evidenciou a importância dos acertos dos peritos que ajudam a polícia a desvendar o crime - e o perigo de “enganos” por parte dela.

A polícia considerou o pai da menina, Alexandre Nardoni, e a madrasta dela, Anna Carolina Jatobá, os responsáveis pela morte. Os dois, apesar de indiciados, negam o crime e não há nenhuma testemunha ocular, alguém que tenha presenciado o fato, de forma que o trabalho da perícia era fundamental neste caso, no qual mais de 60 pessoas prestaram depoimento, mas nenhuma disse ter visto o crime acontecer. As provas colhidas são circunstanciais, o que, para os assassinos (sejam ou não o pai e a madrasta) pode ser um trunfo, uma carta na manga. Mas quando somadas essas provas podem formar um conjunto probatório forte e contribuir para a decisão da Justiça.



Neste caso a perícia enfrentou um problema grave, provocado por falha da polícia: a cena do crime não foi preservada, regra número um em qualquer caso. Policiais entraram no apartamento antes da perícia e permitiram que outras pessoas também ingressassem no local. A perícia só chegou ao local três horas depois do crime, quando muita gente já tinha entrado no apartamento. Mas apesar disso os peritos afirmaram que foi possível trabalhar, e as conclusões que tiraram, em sua maioria, auxiliaram a polícia, que pediu o indiciamento dos dois pela morte de Isabella.

Os acertos da perícia:


  • No local foi encontrada uma fralda, suja de sangue. Apesar do pouco material, foi feito exame de DNA, e a perícia constatou que era da menina. A polícia concluiu que a fralda teria sido usada para estancar o sangue que saiu de um pequeno corte que ela tinha na testa e questionou: como ela se machucou? Foi machucada? A perícia técnica também comprovou que eram dela os pingos de sangue encontrados em outros ambientes do apartamento, como cozinha, sala e quarto.
  • Uma prova considerada muito importante pelo delegado que presidiu o caso foi uma marca de solado de sapato encontrada pelos peritos na cama do quarto, perto da janela de onde a menina foi atirada. Exames minuciosos e com uso de equipamentos especiais constataram que a marca é idêntica à de um calçado de Alexandre, o pai, sugerindo que ele se apoiou sobre a cama para jogar a garota para baixo. Na camiseta usada por ele no dia do assassinato os peritos encontraram minúsculos e quase invisíveis pedaços da rede de proteção colocada na janela de onde a menina foi atirada. A rede foi rasgada para que o corpo pudesse passar pelo vão e ser arremessado para baixo, do sexto andar, onde o casal morava com outros dois filhos. Foi o “microscópio de varredura” que detectou os fragmentos da rede na roupa do pai.
  • Foram também exames periciais que concluíram que a garotinha foi asfixiada e que quando foi jogada pela janela ainda estava viva (mas inconsciente), tendo morrido em decorrência da queda, quando quebrou o punho e a bacia.
  • A perícia confirmou que havia pingos de sangue de Isabella no carro da família, na cadeirinha do bebê, num estofado atrás do banco do motorista e entre os bancos. 
  • Ainda de acordo com a perícia, Alexandre Nardoni teria passado as pernas e depois o tronco de Isabella pelo buraco feito na tela de proteção da janela. Os técnicos ainda descobriram que o pai teve que empregar grande força para segurar a filha pelos braços, pois havia fibras da rede de proteção da janela fortemente presas à camisa dele. Por último a perícia ainda percebeu marcas que teriam sido feitas pelo corpo de Isabella do lado de fora da janela, logo abaixo do parapeito, mostrando o esforço que Alexandre teria feito antes de jogá-la.

Mas, se acertou muito no trabalho, a perícia errou ao divulgar que na roupa do pai havia vômito da menina, informação divulgada por emissoras de TV e outros veículos de comunicação. Passados 15 dias, o Instituto de Criminalística voltou atrás e desmentiu a informação, negando que a mancha amarela encontrada nas roupas do pai fosse do vômito da menina.

Enganos da perícia, por menores que sejam, podem contribuir para que a defesa de acusados se beneficie.


O caso PC Farias e a manipulação da cena do crime

Já no caso da morte de Paulo César Farias, tesoureiro da campanha do ex-presidente Fernando Collor de Melo, alterar a cena do crime foi fatal para a perícia, que pouco pôde analisar depois que tudo foi remexido. O mais incrível da história é que os seguranças de Paulo César, conhecido como “PC”, eram policiais e nem assim se preocuparam em manter o local.

PC e a namorada dele, Suzana Marcolino, foram mortos em 23 de junho de 1997, na casa em que PC morava, em Maceió, Alagoas. Cada um levou um tiro.

Quando a perícia chegou à casa tudo tinha sido mexido e alterado. Colchão e lençóis tinham  sido queimados, o local lavado. Foi um caso que causou uma grande polêmica.

Peritos locais de Maceió concluíram que PC e Suzana foram assassinados. A polícia não deu crédito a eles e preferiu contratar os trabalhos de um perito criminal de São Paulo, Fortunato Badan Palhares, na época muito famoso por ter trabalhado em grandes casos. Apesar de encontrar tudo totalmente diferente do dia do crime, Badan afirmou que era possível fazer  uma boa perícia, baseando-se em uma marca de bala na parede, que segundo ele definiria a trajetória do tiro. Usou feixes de luzes e outras artimanhas, fez teste acústico de balística (foram disparados tiros dentro do quarto para saber se era possível ouvi-los estando no jardim, onde estavam os seguranças de PC, que alegaram não ter ouvido nenhum dos dois disparos) e até compararam a altura de Suzana à altura de onde estava a marca de bala. Concluiu o perito paulista que ela atirou no namorado e depois se matou.
Os peritos de Maceió protestaram muito, uma vez que a conclusão de Badan Palhares era totalmente diferente da conclusão deles.
O caso, até hoje, gera discussão e deixou dúvidas. Poucos acreditaram na conclusão de Badan e uma reportagem, publicada pela Folha de S.Paulo, causou mais polêmica ao caso. O jornal mostrou que os cálculos do perito paulista, em relação à trajetória da bala, estavam totalmente errados porque ele errou na altura da moça. O perito declarou no laudo que ela atirou no namorado e que tinha certeza de que tinha sido ela porque comparou a altura da moça com a altura da bala que  ficou na parede. Ora, se ele não sabia a altura certa dela , a conclusão sobre a direção da bala estava errada, e conseqüentemente a conclusão também.


O caso foi parar na Justiça e Badan chegou a ser processado por imperícia, mas o caso acabou arquivado.

Fonte: HSW

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